domingo, 31 de julho de 2011

Aromateria e sua história

História da Aromaterapia 
por Kathi Keville - traduzido por HowStuffWorks Brasil


Introdução

Acredita-se que a história da aromaterapia começou com a queima de madeiras, folhas, gravetos e eucaliptos perfumados na Antigüidade. Esta prática provavelmente apareceu a partir da descoberta de que algumas fogueiras, como as feitas de cipreste e cedro, perfumavam o ar quando eram queimadas. Na verdade, a nossa palavra moderna perfume deriva do latim per fumum, que significa "através da fumaça".



O incenso não foi, portanto, a única utilização de fragrância nos tempos antigos. Em algum ponto entre os anos 7000 e 4000 a.C., as tribos neolíticas aprenderam que as gorduras dos animais, quando eram aquecidas, absorviam as propriedades aromáticas e curativas das plantas. Talvez folhas ou flores perfumadas tenham caído acidentalmente na gordura enquanto a carne estava sendo preparada na fogueira. A informação obtida nesse acidente levou a outras descobertas: as plantas davam sabor à comida, ajudavam a curar ferimentos e suavizavam a pele seca de forma bem melhor que a gordura sem fragrância. Essas gorduras perfumadas, as precursoras das nossas modernas loções para massagem e para o corpo, perfumavam quem as usava, protegiam a pele e os cabelos das intempéries do tempo e dos insetos e relaxavam músculos doloridos. Elas também afetavam a energia e as emoções das pessoas.
A queima de incenso em cerimônias de religiões antigas é uma das primeiras utilizações da aromaterapia.
Annavsculture
A queima de incenso em cerimônias de religiões
antigas é uma das primeiras utilizações da aromaterapia

A água aromatizada, um terceiro tipo de produto aromático, era na verdade uma combinação de óleos essenciais, água e álcool. Ela era usada para melhorar a aparência e perfumar a pele e os cabelos, além de ser ingerida como tônico medicinal. Ela foi a precursora do nosso perfume moderno.
Conforme a civilização progrediu, o incenso, os óleos corporais e as águas aromáticas foram combinados para curar a mente, o corpo e o espírito. Assim, no mundo todo, o aroma se tornou parte integral da cura e fundou a base da utilização atual da aromaterapia.

O comércio das fragrâncias

Na Antigüidade, assim como hoje, óleos essenciais normalmente usados, como o olíbano (também conhecido como franquincenso), eucalipto, gengibre, patchouli e pau-rosa vinham das partes mais distantes do globo. Esses componentes vitais para cerimônias religiosas, medicina, comida, cosméticos e afrodisíacos tinham muita demanda e eram mais caros do que metais preciosos e jóias. Embora cada região pudesse produzir roupas, abrigo e comida a partir dos recursos de seus próprios territórios, as pessoas de todos os países procuravam por cheiros raros e exóticos, que literalmente dessem sabor às suas vidas e um ar de mistério às suas cerimônias.

A demanda pelos materiais aromáticos, combinada com o fato de eles serem portáteis, levou ao estabelecimento de um comércio de longa distância. Felizmente, as sementes e ervas podiam ser secadas, os eucaliptos podiam ser enrolados em grãos e as fragrâncias podiam ser infundidas em óleo ou perfumes sólidos, retendo ou melhorando suas propriedades, o que os tornou ainda mais fáceis de serem transportados e relativamente difíceis de serem danificados.

Com o comércio e a paixão pelas fragrâncias vieram a aventura e a intriga. Frotas de navios cruzavam os oceanos, exploradores arriscavam suas vidas viajando por vastos desertos, guerras eram iniciadas devido a disputas de terras e direitos de comércio, reinos eram conquistados ou perdidos e o amor florescia: tudo em busca de fragrâncias. Como resultado, a busca pelas fragrâncias foi mais responsável pelo desenrolar da história do mundo moderno do que qualquer outro fator em particular.

Início babilônico

Ninguém sabe ao certo quando o comércio começou, mas um pedido de importação de cedro, mirra e cipreste foi encontrado inscrito em um bloco de argila da antiga Babilônia. Há mais de 5 mil anos, quando os egípcios ainda estavam aprendendo a escrever e a fazer tijolos, eles já estavam importando grandes quantidades de mirra, seu mais valioso produto de importação. Com certeza havia rotas de comércio pelo Oriente Médio para se obter mirra e outras fragrâncias antes de 2000 a.C. e elas foram bastante usadas durante os 30 séculos seguintes.

O comércio por terra significava meses exaustivos cruzando desertos áridos e transpondo difíceis passagens montanhosas, sendo ameaçados por bandidos. Por isso, esses produtos logo começaram a ser transportados pelo mar, levando a melhorias nas técnicas de navegação, nas embarcações e na navegação em si. Os ventos de monção carregavam as canoas de duas velas pela rota da canela nos mares do sul. Mais tarde, os comerciantes egípcios (e às vezes os romanos) tiravam proveito desses mesmos ventos e iam para a Índia no verão e voltavam para casa no inverno.

O cheiro da realeza

Transportar e negociar não é uma arte nova. Ela foi intensivamente usada no antigo comércio das fragrâncias. A grande rainha ecípcia Hatshepsut, por exemplo, conhecia uma oportunidade de negócios quando via uma. Um de seus grandes feitos foi mandar uma expedição para Punt, na costa africana, para estabelecer o que seria um negócio muito lucrativo. Ela também trouxe de volta para o Egito 31 árvores de mirra, que foram plantadas em um jardim botânico que formava a passagem para o seu sólido templo, Deir al-Bahari, perto de Tebas. As imagens das árvores de mirra esculpidas em baixo-relevo nas paredes do templo podem ser vistas até hoje.

Outras rainhas tiveram um impacto semelhante na história aromática. Quando a rainha de Sabá visitou o Rei Salomão da corte de Israel, foi para discutir o comércio das fragrâncias. Algumas fontes dizem que ela era do sudoeste da Arábia, terra do olíbano e da mirra, mas é mais provável que ela fosse rainha de uma tribo do norte da Arábia que comercializava a resina de terebinto da árvore de pistache.

Algumas vezes, a fragrância simplesmente seguiu as pegadas dos famosos. Por exemplo, as conquistas de Alexandre, o Grande, tiveram pouco a ver com a busca de materiais fragrantes. Na verdade, ele as desprezava porque o faziam se lembrar de seus inimigos persas e ele, com desdém, jogou fora uma caixa de ungüentos de valor incalculável da tenda do rei Dario, depois de vencê-lo na batalha de Issos. Entretanto, depois de alguns anos viajando pela Ásia, ele se convenceu dos prazeres das finas fragrâncias e passou a untar seu corpo com óleos perfumados e a manter incensos queimando próximo ao seu trono.

Mercado mundial

Atualmente as cidades prosperam e vão à falência devido ao preço do petróleo. Na Antigüidade também, mas eram óleos perfumados e condimentos e não combustível que alimentavam o crescimento de cidades-chave pelas avenidas de comércio. Com a introdução dos camelos e animais de carga, a cidade de Alexandria se transformou em um centro comercial que ligava várias rotas, inclusive uma para a Arábia, a 3.220 km de distância.

Por volta do século 4 a.C., a Babilônia tinha um mercado próspero, negociando cedro do Líbano, cipreste, pinho, resina de pinheiro, murta, cálamo e junípero. Atenas era famosa por suas centenas de lojas que vendiam óleos corporais e incensos/perfumes sólidos. Comerciantes fenícios negociavam cânfora chinesa, canela indiana, pimenta preta e sândalo. A África, o sul da Arábia e a Índia forneciam capim cidreira, gengibre e nardo, cuja rizoma tem uma fragrância exótica. A China importava óleo de gergelim com cheiro de jasmim da Índia e da Pérsia, água de rosas pela Rota da Seda e, às vezes, aromas da Indonésia: cravo-da-índia, benjoim, gengibre, noz moscada e patchouli. Os negociantes mais espertos sabiam quais lugares produziam os melhores óleos e fragrâncias.

Fortuna perfumada

Desde a Antigüidade, a riqueza e o poder têm podido se afogar nas fragrâncias. Na verdade, isso aconteceu literalmente com um romano azarado. Ele se asfixiou quando os painéis entalhados de marfim do teto da sala de jantar do Imperador Nero deslizaram para a sala de banhos dos convidados, que descansavam em almofadas no chão, com centenas de quilos de pétalas frescas de rosas. Os romanos ricos se viciavam tanto em fragrâncias que o governador Leptadeni, em 188 a.C., lançou um edital proibindo tal excesso.

A população romana não deu muita atenção a essa proibição e a demanda pelo inceso só cresceu. No primeiro século d. C., os romanos estavam queimando 2.800 toneladas de franquincensos importados e 550 toneladas de mirra (essas duas ervas eram mais caras do que o ouro) por ano. Como resultado, o Imperador Augusto quintuplicou o número de navios comerciais que navegavam entre o Egito e a Índia, de vinte para cem.

A cultura islâmica também era rica em fragrâncias e as usava muito na medicina, em cosméticos e na culinária. Misturava-se água de rosas no cimento usado para construir as mesquitas e acreditava-se até que o chão do paraíso emitisse o cheiro de almíscar e açafrão. O próprio Maomé foi comerciante de condimentos e fragrâncias e viajava em caravanas de camelos. Ele amava fragrâncias, especialmente as rosas, citando-as freqüentemente em seus ensinamentos: "Quem quer que sinta o meu cheiro, deixe-o sentir o cheiro das rosas".

Unindo o oriente ao ocidente

Embora não tenha sido a intenção, as cruzadas dos séculos 11, 12 e 13 mostraram à população européia as idéias árabes e estimularam a apreciação das fragrâncias orientais, apesar dos avisos do clero cristão de que elas estavam associadas ao demônio. Os guerreiros voltavam com presentes de óleos, águas de cheiro e perfumes sólidos. Logo a elite européia estava querendo água de rosas e os italianos não podiam viver sem colocar água de laranja em seus doces e confeitos.

Conforme o comércio de fragrância aumentava entre o oriente e ocidente, o mesmo acontecia com a troca de idéias. Para facilitar o comércio, os chineses adotaram o sistema indiano de contagem. Por volta do século 11, os árabes estavam navegando com navios carregados de condimentos da Índia para a China, com a bússola chinesa e o leme equilibrado na popa. Durante o século seguinte, a marinha chinesa cresceu de 3 para 50 mil marinheiros, para comandar embarcações maiores que levassem seis mil cestas de ervas e condimentos perfumados.

As classes mais altas da sociedade chinesa esbanjavam fragrâncias, principalmente da Dinastia T'ang no século 7 até a Dinastia Ming no século 17. Em tudo havia fragrância: banho, roupa, construções, tinta e papel. Paisagens em miniatura, nas quais havia uma montanha de onde saía uma fumaça perfumada, viraram febre.

Exploração e colonização

Marco Polo fez sua famosa jornada até a corte de Kublai Khan no final do século XIII para estabelecer relações comerciais diretas entre a Itália e a China. Os italianos poderiam, então, enganar os intermediários muçulmanos e seus 300% de lucro. O acordo foi bem sucedido e, durante os séculos 13 a 15, a Itália monopolizou o comércio oriental com a Europa. Para não ficar para trás, a Espanha mandou Cristóvão Colombo atravessar o oceano para procurar um caminho mais curto para a Índia.

Foram os portugueses que estabeleceram uma rota para a Índia que contornava Alexandria e Constantinopla. Em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia, terra dos condimentos e ervas cheirosas. Foi levada uma quantidade imensa de especiarias para Lisboa.

No começo do século XVII, os holandeses construíram fortes na Índia, estabelecendo lá, à força, a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Nas províncias que não conseguiam controlar, eles simplesmente arrancavam as árvores de noz moscada e cravo-da-Índia pela raiz, para que ninguém mais as pudesse ter, mas os franceses conseguiram roubar várias plantas bem debaixo do nariz dos holandeses. Elas eram plantadas nas Índias Francesas do Ocidente e na ilha de Bourbon (agora chamada Reunion).

A demanda por óleos essenciais e condimentos realmente começou a crescer com a invenção do incenso e dos perfumes sólidos.

O surgimento do incenso e dos perfumes sólidos

Durante milhares de anos pelo mundo todo, a fumaça perfumada tem purificado o ar e confortado indivíduos que precisavam de ajuda física, emocional ou espiritual. No começo, jogar alguns galhos perfumados de plantas em fogueiras atingia o objetivo, mas o incenso sólido foi criado, usando-se sementes e plantas misturadas com mel, moldados em cubos sólidos e colocados em um carvão da fogueira. Em muitas culturas, fogueiras elaboradas para cerimoniais eram projetadas para sustentar cubos de incenso queimando em sua parte superior.

O barulho das plantas perfumadas logo se desenvolveu para a produção de incenso, usando-se sementes e mel para unir os aromas.
Maurice Koop
O barulho das plantas perfumadas logo se desenvolveu para
a produção de incenso, usando-se sementes e mel para unir os aromas
 
Purificação

Templos antigos, salas de conselho e casas usavam o incenso mais liberadamente do que o fazemos com aromatizantes de ar. Ele era uma pequena maravilha, já que podia dispersar o cheiro desagradável das condições de vida pouco sanitárias. Na Europa, Arábia, Índia, China e por toda a América do Norte, as casas eram defumadas para expulsar os maus espíritos que causavam doenças e, ao mesmo tempo, livravam as casas de moscas e insetos. Durante epidemias, as pessoas que se concentravam nos templos e nas igrejas provavelmente eram ajudadas com a queima de ervas anti-sépticas. Acredita-se que Hipócrates, o pai da medicina, tenha livrado Atenas de uma praga queimando plantas perfumadas, assim como Moisés e Aarão fizeram no deserto (Num 16:46-50).

Doenças respiratórias e reumáticas, dores de cabeça e desmaios eram tratados com a inalação da fumaça vinda de plantas aromáticas e, algumas vezes, ervas aromáticas molhadas. Outras vezes seus chás eram derramados em pedras quentes para criar um vapor que era inalado. As duas técnicas provaram ser eficazes no tratamento da congestão nasal, problemas no pulmão e dores de ouvido.

Durante cerimônias religiosas ou de cura, os americanos nativos queimavam maços de ervas perfumadas e tranças de capim com cheiro semelhante ao de baunilha e se cercavam de fumaça. Para curar os doentes, pedras soltando vapor do chá de solidago, pulicária, flores selvagens e equinácea eram colocadas perto do paciente e cobertas com peles ou lençóis, para formar uma espécie de mini-sauna.

Aromata versátil

O incenso provou ser imensamente versátil por toda a Europa, Arábia e Índia: foi usado como perfume, como medicina aromática e até como refrescante bucal. Lembre-se de que os incensos antigos continham somente ervas, sementes de plantas e mel (somente depois de muito tempo o carvão vegetal e o salitre não comestível foram adicionados a ele para que, depois de acesos, continuassem queimando). Uma vez que a maioria das ervas era altamente anti-séptica, quando elas eram esfregadas na pele e derretidas pelo calor do corpo, liberavam cheiro e desinfetavam os ferimentos. O incenso era até ingerido como remédio. Não é de surpreender que a palavra grega aromata tivesse vários significados: incenso, perfume, condimento e medicina aromática. Os chineses também tinham uma palavra, heang, que descrevia perfume, incenso e o conceito de fragrância.

Acreditava-se ainda que alguns ítens aromáticos ajudassem na perda de peso, na digestão e na regularização do ciclo menstrual. O perfume romano mais famoso, Susinon, quando ingerido, era diurético e aliviava vários tipos de inflamação. Amarakinon tratava indigestão, hemorróidas e adiantava menstruações, tanto quando era ingerido quanto quando era aplicado diretamente no local a ser tratado. Ele também era usado como perfume. Espicanardo era o ingrediente principal de outro perfume que podia ser tomado como pílula para a garganta, para aliviar tosse e laringite.

Uma intoxicação da mente e das emoções

Em todo o mundo, o incenso tem sido usado para afetar a mente e as emoções das pessoas. Segundo os japoneses, ele estimula a comunicação com o transcendente, purifica a mente e o corpo, mantém as pessoas alertas, atua como companheiro nos momentos de solidão e traz momentos de paz no meio da correria. A fumaça perfumada que sai dos queimadores de incenso de bronze chineses eram classificadas de seis formas básicas: tranqüila, solitária, exuberante, bonita, refinada e nobre.

Certas plantas eram queimadas devido a suas propriedades inebriantes ou afrodisíacas. Em Délfis, Grécia, as sacerdotisas do oráculo sentavam-se em banquetas sobre buracos no chão, que emitiam fumaça de folhas de louro, para inspirar suas visões. Embora pouco do esplendor de Délfis permaneça até hoje, ainda é possível ver as câmaras de incenso escondidas embaixo do chão. As mulheres do Tibet, chamadas de adivinhas, cobriam suas cabeças para inalar a fumaça de cedro, o que as induziria ao canto profético. Plantas aromáticas com propriedades hipnóticas eram usadas de modo semelhante pelos aborígenes australianos e pelos americanos nativos.

Cleópatra usou o feitiço do cheiro para encantar Marco Antônio. Seus escravos ventilavam fumaça de incenso no navio. Em Antônio e Cleópatra, Shakespeare descreve estas viagens como "tão perfumadas que os ventos ficavam apaixonados por elas". Isso provavelmente não ficava longe da verdade, já que se acredita que o cheiro que ela escolhia fosse o delicioso cheiro de henna, mencionado na Canção de Salomão - e que se acreditava ser afrodisíaco.

Utilizações religiosas do incenso

Em quase todas as culturas acreditava-se que o incenso atraía deuses e deusas, afastava os maus espíritos e purificava o corpo e a alma. Pessoas da Antigüidade, acreditando que o espírito e a vida entrassem no corpo através da respiração, também pensavam que a inalação de certos odores os levaria para perto de Deus. A fragrância era ligada ao divino porque era invisível, misteriosa e atrativa. Eles chamavam de aroma a alma da planta e achavam que isso era um presente de Deus. Eles também acreditavam que as divindades achariam que as preces, ditas na fumaça e elevadas aos céus, seriam mais prazerosas se fossem aromatizadas.

Sua associação com a sensualidade e o uso excessivo pelos árabes, romanos e judeus deu ao incenso uma má reputação entre a maioria dos cristãos antigos. Entretanto, algumas seitas os usavam exclusivamente para cerimônias religiosas. Os critãos gnósticos do século 1 ao 4 foram profundamente influenciados pela filosofia egípcia e adotaram as crenças antigas de que a fragrância de uma planta está associada à alma do homem. Às vezes a igreja católica usava o incenso para purificar e abençoar suas estáruas, relíquias, altares e os que estavam participando da missa.

Para os taioístas chineses, a fragrância também tinha um significado religioso. Entre os 10 mil ritos do budismo taioísta, acredita-se que "a queima do incenso tem prioridade", representando a libertação da alma das limitação do mundo material. Para aprimorar sua experiência, às vezes eles incorporavam plantas psicoativas como a cannabis em seus incensos. O queimador de incenso, chamado fa lu, tornou-se um objeto de devoção.

A arte e prática do cheiro

Embora os japoneses tenham começado a usar o incenso relativamente tarde, eles desenvolveram rapidamente uma arte sofisticada chamada koh-do, que foi ensinada em escolas especiais. Ainda praticada por algumas pessoas atualmente, os participantes da cerimônia do incenso tinham que tomar banho e vestir roupas limpas, para não trazerem odores para a sala. Então, eles tentavam adivinhar as diferentes características do incenso. O vencedor ia para casa com um prêmio.

Os japoneses, durante os períodos Nara e Kamakura (de 710 a 1333 da era cristã), eram particularmente práticos quando apareceu o uso caseiro dos incensos. Um relógio mudava de cheiro conforme passava o tempo. Um outro, ainda mais sofisticado, anunciava o tempo de acordo com qual chaminé emitisse fumaça. A gueixa até sabia onde seus clientes estavam pela quantidade de incenso que havia sido queimada. Um apoio para cabeça especial chamado kikohmakura soltava fumaça perfumada nos cabelos das mulheres e os kimonos eram pendurados em um armário com fumaça perfumada.

O primeiro romance do mundo, Príncipe Genji, escrito por Lady Murasaki Shikibu no século 11, descreve a prática da aromatização das mangas de um kimono. Pequenos queimadores de incenso eram "mantidos por um tempo dentro de cada manga", para que o cheiro entrasse por onde quer que um movimento pudesse ser feito pela mão.

A elite européia também perfumava suas mangas. As damas da corte prendiam pingentes cheirosos, que continham perfumes sólidos importados da Arábia, nas mangas de seus vestidos de veludo. Elas também deixavam o perfume nos medalhões que colocavam no pescoço, onde poderiam ser facilmente cheirados. O óleo de flor de laranjeira era extraído e misturado com polpa de amêndoa prensada para fazer ungüentos perfumados muito populares. Pomme d’ambre, por outro lado, eram balas de âmbar cinza, condimentos, mel e vinho penduradas no cinto em um recipiente pequeno e perfurado. Até mesmo o menor movimento de uma saia envolveria alguém em uma fragrância.

A invenção dos óleos corporais

A fragrância também encontrou espaço na vida religiosa e secular através de óleos perfumados. Eles eram feitos (e ainda são atualmente) por meio da extração e transformação dos óleos de plantas em gordura ou em óleo vegetal e depois filtração do material usado. Eles eram amplamente utilizados em cerimônias religiosas para consagrar templos, altares, estátuas, velas e sacerdotes.

Utilização religiosa dos óleos perfumados

O Livro do Êxodo (30:22-25) fornece uma das mais antigas receitas de unção com óleo (dada por Deus a Moisés para ser usada na iniciação dos sacerdotes). Os ingredientes incluiam mirra, canela, cálamo e cássia misturados no azeite de oliva.

Quando Maria Madalena untou os pés de Cristo e os limpou com seus cabelos, ela o fez com um óleo feito a partir do nardo. O nome Cristo, ou Christos, do grego chriein, significa literalmente "untar", e o franquincenso e a mirra levados pelos reis magos para Jesus Cristo provavelmente eram óleos de unção. Acredita-se que esses óleos eram mais valiosos do que o ouro carregado pelo terceiro rei mago.



Os egípcios antigos eram conhecidos devido a sua capacidade de criar óleos perfumados.
Os egípcios antigos eram conhecidos
devido a sua capacidade de criar óleos perfumados
 
Os cheiros dos egípcios antigos

O talento egípcio para formular óleos perfumados se tornou lendário e seus óleos eram, com certeza, muito poderosos: potes de calcita cheios de óleos perfumados ainda tinham um leve odor quando o túmulo do rei Tutancâmon foi aberto 3 mil anos depois de sua morte. Os egípcios eram especialmente criativos na utilização do cheiro e não o restringiam a ritos religiosos. O cheiro específico de alguém, ou khaibt, era representado por um hieróglifo de um leque e acreditava-se que ele fosse capaz de influenciar as emoções dos outros.

O primeiro spa de beleza pode ter sido a fábrica de perfume de Cleópatra em En Gedi, perto do Mar Morto. Aparentemente, tratamentos de saúde e beleza eram oferecidos às pessoas, já que as ruínas da fábrica têm assentos que parecem ter sido parte de salas de tratamento ou de espera. Ervas perfumadas eram misturadas em um azeite de oliva especialmente preparado. Infelizmente, o livro onde Cleópatra registrava receitas de seus óleos corporais, Cleopatra Gynaeciarum Libri, foi perdido. Só sabemos de sua existência porque foi mencionado em textos romanos.

Banhados em fragrância

Os romanos, que não gostavam do processo bagunçado de infusão e filtração dos óleos perfumados, importavam a maioria dos seus do Egito. Tanto os homens quanto as mulheres se banhavam nas fragrâncias. A utilização dos perfumes era tanta que os romanos apaixonadamente chamavam seus amores de "minha mirra, minha canela", assim como os norte-americanos chamam seus amados de "honey" (palavra em inglês para "mel")

Os gregos eram especialmente seduzidos pelo uso de óleos perfumados. Na verdade, Hipócrates recomendava o uso de óleos corporais no banho. Em Atenas, donos de lojas de ungüentos vendiam manjerona, lírio, tomilho, sálvia, anis, rosa e íris infundidos em óleo e engrossados com cera de abelhas. Eles embalavam seus ungüentos (derivado de uma palavra que significa manchar ou untar) em potes de cerâmica pequenos e decorados, assim como fazem até hoje. Entretanto, naqueles tempos os donos de lojas eram consultados como médicos e seus produtos eram vendidos para várias utilizações com fins medicinais.

Homens e mulheres gregos untavam seus corpos para um realce pessoal e sensualidade. Os homens usavam um óleo perfumado diferente, escolhido por suas características particulares, para cada parte de seu corpo. A maioria dos óleos que usavam, como hortelã para os braços, eram quentes e estimulantes.

Os óleos também eram usados para massagear músculos que estivessem rígidos. Os atletas na Índia, na ilha mediterrânea de Creta e, depois, na Grécia e em Roma, esfregavam óleos especialmente preparados em seus músculos antes (e muitas vezes depois) de participar de jogos.

A prática tântrica dos indianos orientais transformava as mulheres em um verdadeiro jardim de prazeres da terra. Elas se untavam com jasmim nas mãos, patchouli no pescoço e queixo, âmbar nos seios, nardo nos cabelos, almiscareiro no abdômen, sândalo nas coxas e açafrão nos pés. Os homens, entretanto, só aplicavam sândalo no corpo.

O ritual de banho diário na Índia exigia a aplicação de óleos de gergelim perfumados com jasmim, coentro, cardamomo, manjericão, costus, pandanus, ágar, pinho, açafrão, champac e cravo-da-índia. Os antigos livros védicos religiosos e medicinais davam instruções sobre como equilibrar a temperatura corporal, o temperamento e a digestão através de aromas e alguns de seus usos terapêuticos com certeza foram passados para o ocidente.

No Egito, todos usavam óleos corporais, da realeza aos trabalhadores. Operários que construíam um local para enterros entraram em greve no século 12 a.C. não somente porque a comida era ruim, mas também porque "não tinham óleos". Eles dependiam dos óleos para aliviar a dor dos músculos depois de um dia rebocando e entalhando pedras enormes e para proteger suas peles do forte sol do Egito.

Pelas Américas, a massagem com óleos perfumados também foi usada como terapia e freqüentemente foi o primeiro tratamento oferecido. Um óleo de massagem preparado pelos incas continha valeriana e outras ervas relaxantes que eram engrossadas com algas marinhas. Os astecas massageavam os doentes com ungüentos perfumados em suas casas.


Perfumes líquidos

O perfume, tal como o conhecemos hoje, embalado em pequenas e caras garrafas com alto teor de álcool e centenas de compostos químicos, é uma invenção relativamente nova.

Os perfumes líquidos que conhecemos hoje quase não têm semelhança com os primeiros perfumes, criados há milhares de anos.
Jim Crossley
Os perfumes líquidos que conhecemos hoje quase não têm
semelhança com os primeiros perfumes, criados há milhares de anos
 

O invento de Maria Profetisa

A primeira descrição escrita de um destilador para produzir óleos essenciais aparece no século 1. Maria Profetisa, também conhecida como Maria, a Judia, inventou um mecanismo que se parecia com uma chaleira dupla. Ela descreveu o óleo ali produzido como "um anjo vindo dos céus". Por volta do século 2, os chineses e árabes estavam destilando óleos essenciais e o Japão os seguiu alguns séculos depois.

As invenções de Profetisa também destilavam álcool. Misturando-o com os óleos essenciais e diluindo isto em água, produzia-se um novo tipo de fragrância. Essas "águas" perfumadas faziam o corpo cheirar bem e também funcionavam como remédio e cosmético. Quando eram colocados na pele, elas melhoravam o tom da pele e diminuíam manchas. Quando eram ingeridas, aliviavam a indigestão, cólicas menstruais ou tratavam muitas outras doenças. Nascia, assim, o "tônico medicinal".

Águas aromáticas

Se você já experimentou um fino licor europeu como o Benedictine ou o Fra Angelica, você está se beneficiando dos alambiques das enfermarias e herbários dos antigos mosteiros. Muitos monges e freiras eram dedicados herbalistas que serviam como médicos e farmacêuticos para seus pacientes. As águas aromáticas eram uma de suas prescrições favoritas.

Algumas fontes dão à herbalista do século 12, Santa Hildegard (madre superiora de Bingen), o crédito da invenção da lavanda, que ela menciona em uma pesquisa sobre ervas medicinais e aromáticas. Seja como for, essa água aromática pegou a Europa em cheio. Por volta do século 14, a lavanda era tão popular que o rei francês Carlos V tinha lavanda plantada nos jardins do Louvre, para garantir o fornecimento.

Outra famosa invenção vinda de mosteiros foi a Aqua Mirabilis, ou "Água milagrosa", uma combinação de água e álcool, reforçada com óleos essenciais. Ela era ingerida para melhorar a visão e para tratar dores de reumatismo, febre e congestão, além de também melhorar a memória, diminuir a depressão e ser espirrada no corpo para melhorar o cheiro das pessoas. A água carmelita era preparada pelas freiras carmelitas da Europa, a partir de uma fórmula secreta que agora sabemos que inclui melissa e angélica. Ela auxiliava na digestão e na aparência, dependendo de sua utilização. Versões modernas da água milagrosa e da água carmelita ainda são vendidas na Europa atualmente.

Eau de Cologne

Em 1732, águas aromáticas foram refinadas e transformadas em colônia quando Giovanni Maria Farina de Cologne, França, tomou posse dos negócios de seu tio. Aqua Admirabilis, uma vigorosa mistura de neroli, bergamota, lavanda e alecrim em álcool de uvas, que tem um cheiro particular de fruta, foi usada no rosto e também para tratar inflamações e indigestão. Os soldados a apelidaram de "Eau de Cologne", significando água de colônia, devido à cidade. O nome Cologne ficou em todas as águas perfumadas dessa época em diante. O boato é que Napoleão usava várias garrafas por dia, uma confirmação que fez a colônia ficar tão popular que aproximadamente 39 produtos quase idênticos foram criados. Seguiu-se meio século de processos judiciais contra essas colônias falsificadas.

Depois de quatro séculos como a favorita incontestável, a água Queen of Hungary foi nomeada pela Eau de Cologne como a fragrância com maior demanda.

Química e cosméticos

Há pouco mais de 100 anos, de repente, a indústria das fragrâncias foi empurrada para a idade da química moderna. Antigamente, a colônia e até o sabão eram considerados como parte da farmácia medicinal. Então, em 1867, a Exposição Internacional de Paris os exibiu audaciosamente em uma seção separada, chamada de cosméticos. Essa atitude radical fez nascer uma nova indústria que construiu o caminho de um novo produto: o perfume.

No ano seguinte, foi desenvolvido em laboratório o primeiro óleo essencial comercial sintético. Com seu perfume de feno recém cortado, o óleo sintético foi um sucesso instantâneo entre os fabricantes de colônia. Milhares de fragrâncias sintéticas, até mesmo as que imitam os óleos essenciais mais raros e caros, foram desenvolvidos, em sua maioria, a partir de materiais químicos derivados do petróleo.

Esses óleos sintéticos mudaram definitivamente a natureza da fragrância pessoal. Os novos produtos químicos eram tão concentrados que permitiam a fabricação de perfumes poderosos. Substituindo as leves colônias que eram livremente borrifadas, apenas algumas gotas de perfume deixavam um indivíduo completamente cheiroso, além de terem sido inventados outros aditivos químicos que faziam o cheiro durar por horas. É claro que com todos os ingredientes sintéticos, as colônias e perfumes já não eram mais medicinais - e, com certeza, também não eram mais comestíveis. Pela primeira vez na história, eles eram um produto puramente cosmético.

Promovidas pelo novo e emergente mundo fashion, as principais perfumarias, como a Guerlain, a Bourjois e a Rimmel, estabeleceram-se na França. Enquanto a era vitoriana tinha desprezado os cheiros mais leves, os estilos mudaram quando os soldados americanos voltaram da França depois da primeira guerra mundial trazendo perfumes como presentes. A idéia de usar uma fragrância pessoal pegou.


O retorno da aromaterapia

Atualmente, produtos de medicina, aromaterapia e perfumes são vistos como coisas separadas, embora a aromaterapia esteja, pouco a pouco, recuperando sua herança medicinal. Um químico francês, Rene-Maurice Gattefosse, inventou o termo "aromatherapie" em 1928. Sua família fazia perfumes, mas seu interesse no uso medicinal dos óleos essenciais começou quando ele queimou gravemente sua mão em uma explosão no laboratório. Ele mergulhou propositalmente a mão num recipiente de óleo de lavanda que estava por perto para aliviar a dor, mas ficou impressionado com a rapidez com que isto aconteceu. Ele escreveu vários livros e artigos sobre a química dos perfumes e cosméticos. Aproximadamente na mesma época, um outro francês, Albert Couvreur, publicou um livro sobre as utilizações medicinais dos óleos essenciais.

Uma nova onda de praticantes da aromaterapia se inspirou nesse livro, sendo um deles o Dr. Jean Valnet, que (enquanto foi cirurgião na segunda guerra mundial) usou óleos essenciais como o tomilho, cravo-da-índia, limão e camomila em ferimentos e queimaduras. Mais tarde, ele usou os óleos essenciais para tratar de problemas psiquiátricos. Marguerite Maury, uma bioquímica francesa, desenvolveu métodos terapêuticos de aplicação destes óleos na pele (como a massagem por exemplo) reintroduzindo um antigo método da aromaterapia no mundo moderno.


SOBRE O AUTOR: Kathi Keville é diretora da American Herb Association e editora da American Herb Association Quarterly newsletter. Escritora, fotógrafa, consultora e professora especializada em aromaterapia e ervas por mais de 25 anos, ela escreveu vários livros, incluindo Aromatherapy: The Complete Guide to the Healing Art and Pocket Guide to Aromatherapy, e escreveu mais de 150 artigos para revistas como New Age Journal, The Herb Companion e New Herbal Remedies.

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